por Luiz Antonio Simas
Não entendo, definitivamente não entendo, como alguém pode considerar o automobilismo um esporte. Estava dormindo o sono dos justos até bem pouco tempo; o vizinho, entretanto, fez questão de ligar a televisão em uma altura colossal para assistir a um grande prêmio qualquer que o histérico Galvão Bueno está transmitindo. Cáspide!
Tenho que ter um mínimo de coerência. Se execro, por exemplo, as colunas sociais, os bares sofisticados que usam o epíteto de botequins e os desmandos de uma parcela significativa da elite brasileira, não posso vibrar com corridas de automóveis, uma atividade praticada em sua ampla maioria por playboys que se sentem verdadeiros heróis ao entrar numa banheira de gasolina e ficar rodando como uns babacas em alta velocidade, patrocinados por marcas de cigarro e bebidas.
Imaginem isso; alta velocidade, cigarros e bebidas misturadas pela máquina de moer miolos que é a propaganda. Isso não é esporte nem aqui nem na casa do cacete.
Outro dia li a notícia que o ex-piloto Nelson Piquet está frequentando a escolinha do Detran, após cometer toda sorte de atrocidades no trânsito e perder a carteira batendo recordes de multas. A primeira coisa que me causou espanto foi ver que alguns jornais consideraram um tremendo ato de grandeza do Piquet aceitar frequentar a escolinha. Aceitar como ? Ele é réu, cara pálida! Ou faz a escolinha ou dança. Ou será que um ex-piloto deve estar imune ao código de trânsito brasileiro, em virtude de um notório saber? Desde quando um piloto de Fórmula 1 necessariamente sabe dirigir em uma cidade? Esses playboys estão acostumados a correr a 240 km por hora. Deve ser um suplício para um camarada desses andar a oitentinha, como manda a lei em perímetros urbanos.
Escrevi em outra ocasião que acho um desastre, na gestão Juscelino Kubitschek, a opção rodoviarista que o governo fez. Sobretudo porque o rodoviarismo no Brasil não se limitou a representar o sucateamento da malha ferroviária, o abandono de projetos hidroviários ou coisa que o valha. A indústria automobilistica entrou no Brasil com uma estratégia de propaganda destinada a criar o culto do automóvel como símbolo de ascensão social, masculinidade, poder e outras babaquices do gênero. O carro deixa de ser visto como o que de fato é, um meio de locomoção, e adquire a conotação simbólica de um objeto de desejo que qualifica seu possuidor com um status específico.
Eu lamento, por exemplo, que Airton Senna tenha sido elevado à condição de herói nacional. Um sujeito que votava no Maluf, apoiou o Collor, namorou Xuxa e Adriane Galisteu, foi amigo do Galvão Bueno e cuja atividade produtiva era ficar andando de carro em altíssima velocidade pelos circuitos do mundo. Envolveu-se, ainda, naquela patética disputa com Alain Prost, em que em nome do título mundial um tentava mostrar ao outro quem era capaz das maiores cafajestagens. Belo exemplo. Pelo menos, vão me dizer os patriotas de butique, levava o nome do Brasil ao mundo e desfilava com a bandeirinha brasileira após a vitória. Ah; ele também acreditava em Deus, o que pra algumas pessoas - não para mim - é uma qualidade.
Enfim, sei que esse arrazoado vai descontentar a ampla maioria dos poucos leitores que passeiam por esse espaço, já que a fórmula 1 é , como diria o Galvão com sua voz retumbante e seu patriotismo proto- fascista, uma paixão nacional. Só quero dizer que, em nome da coerência, se não quero que chamem o Informal, um bar metido a besta, de botequim, não posso concordar que esses caras que ficam dando voltinhas numa pista em alta velocidade praticam algum tipo de esporte. Inventem outro nome para designar essa brincadeira sem graça de playboys e me deixem dormir em paz.
Abraços e que o futebol do fim de tarde me redima dessa manhã de motores roncando.